Brasil
Acesso à Informação

Novos paradigmas para a Ciência

19/06/2018

Encontro na Fiocruz, no dia 15 de junho, marca o início do debate público sobre abertura de dados para pesquisa na instituição

Por Maira Baracho (VPEIC/Fiocruz)

 

O evento “Abertura de dados para pesquisa na Fiocruz: perspectivas de um novo paradigma da Ciência” reuniu, no dia 15 de junho, pesquisadores, gestores e estudantes, marcando o início das discussões sobre Ciência Aberta com a comunidade da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Durante o encontro, que aconteceu no auditório do Museu da Vida, no campus Manguinhos, no Rio de Janeiro, foi apresentado o Termo de Referência, documento produzido pelo Grupo de Trabalho em Ciência Aberta (GTCA) para subsidiar o debate sobre o tema e orientar o processo que resultará na implementação de uma nova política de abertura de dados para pesquisa na instituição.
 
O vice-presidente de Educação, Informação e Comunicação (VPEIC/Fiocruz), Manoel Barral, falou sobre a visão estratégica sobre a abertura de dados para pesquisa na instituição. “Esse debate está na porta e devemos ter uma discussão madura sobre o nosso papel nesse processo”.
 
Em seguida, a coordenadora de Informação e Comunicação da VPEIC e também do GTCA, Paula Xavier, apresentou um panorama da abertura de dados, conceitos, desafios e seus impactos no processo científico. “Alguns estudos comprovam que 80% do tempo da pesquisa é dedicado à organização dos dados. Essa capacidade de reuso em novos contextos e pesquisas futuras é profundamente importante”, apontou, defendendo ainda um amplo debate na Fiocruz.
 
Paula lembrou que a Política de Acesso Aberto ao Conhecimento, em vigor na Fiocruz desde 2014, representou um salto na sistematização da produção científica da instituição. “Fomos desafiados a pensar na ampliação do acesso aberto agora também com a abertura de dados”. Ela lembrou sobre o Livro Verde, publicação do Grupo de Trabalho, que mapeou países protagonistas na discussão e que oferece um amplo panorama sobre o assunto. “A gente não quer se posicionar só por pressões externas, é importante sermos propositivos. Nenhuma outra instituição no Brasil está pensando numa política como essa”, afirmou a coordenadora, que apresentou ao público as diretrizes do Termo de Referência.
 
Especialistas abordam dimensões e horizontes da Ciência Aberta em saúde
 
O diretor de Documentação da Universidade do Minho (Portugal) e referência mundial no assunto, Eloy Rodrigues iniciou as apresentações que tinham como objetivo abordar as dimensões da abertura de dados em saúde. Rodrigues falou sobre dados abertos no Horizonte 2020 e das estratégias da União Européia para o assunto, além de apresentar alguns documentos do contexto europeu para financiamentos. “Não há Ciência Aberta sem acesso aberto universal e sem dados FAIR (Findable, Acessible, Interoperable, Reusable, na sigla em inglês)”, afirmou.

Rodrigues explicou também como funciona o Projeto Foster, iniciativa realizada em Portugal, Holanda, Reino Unido, Espanha, Dinamarca e Alemanha, cujo objetivo é investir em capacitação e contribuir para uma mudança real na prática dos pesquisadores europeus. O projeto visa promover uma transformação cultural e tornar a Ciência Aberta uma norma no continente. “É necessário aplicar essa metodologia no dia a dia”, defendeu.
 
O potencial do uso de dados administrativos com finalidade de pesquisa — na perspectiva da produção de conhecimento em saúde — foi apresentado pelo Coordenador do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), Maurício Barreto. Ele abordou o uso de dados coletados sem finalidade de pesquisa no Sistema de Saúde e as mudanças velozes no cenário de investigação. “Atualmente, muitas de nossas pesquisas tem etapas de produção de dados muito grande, e é comum ver as pesquisadores se sobrepondo em suas pesquisas”, comentou. “Esse novo modelo vai ser cada vez mais intersetorial e compartilhado”, defendeu.
 
A pesquisadora do Instituto Nacional de Controle de Qualidade em Saúde da Fiocruz (INCQS/Fiocruz) e do GTCA, Vanessa Arruda, falou sobre a abertura de dados no contexto de emergência sanitária. Ela compartilhou os resultados preliminares do trabalho de doutorado em ciência da informação no Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict), no qual ouviu pesquisadores atuantes durante a epidemia do Zika Vírus, uma reflexão sobre a abertura de dados nesse cenário e experiências como a do Reino Unido, com o ebola, em 2014.
 
Especialista em proteção de dados e privacidade e assessor jurídico do Grupo de Trabalho, o advogado Danilo Doneda encerrou a programação das palestras do encontro. Membro da equipe que debate os marcos regulatórios no contexto da Ciência Aberta, ele falou sobre ausência de leis e princípios que abordem especificamente este tema, mostrando como as normas já existentes ou em andamento (como o PLC 53/2018) sobre a proteção dados pessoais podem influenciar na abertura de dados para pesquisa.
 
Debate aberto à comunidade
 
Após as apresentações, o público aproveitou o espaço para tirar dúvidas com os palestrantes, dar sugestões e trocar experiências. A pesquisadora da Fiocruz, Maria do Carmo Leal, elogiou a iniciativa: “Adorei a discussão e o fato da Fiocruz estar se organizando para entrar nessa frente — que é mundial — de compartilhamento de dados de informações para aumentar a capacidade de análise na área científica, para que possamos dar respostas melhores para necessidades da humanidade”. Patra
 
Ela disse também que não se trata de um caminho de curto prazo e que é preciso se preparar para enfrentar os questionamentos da comunidade de pesquisa. "Devemos ter algumas incompreensões de pesquisadores, assim como um outro conjunto de pesquisadores que vai aderir facilmente, porque já sabem da discussão e já compartilham dessa ideia de democratizar ao máximo todo conhecimento científico. Espero que a gente construa essa condição, que implicará uma série de questões de infraestrutura, repositório das pesquisas, por exemplo. Ao mesmo tempo, precisaremos criar as condições de que tratamos aqui hoje: de harmonização institucional em relação à questão, compartilhando o que tem de mais atual e avançado do ponto de vista da ciência em benefício da humanidade”, complementou Maria do Carmo.
 
Próximos passos

Após a abertura do diálogo, os próximos três meses serão marcados pela ampla divulgação e circulação em canais de comunicação. Em seguida, o debate será capilarizado junto a grupos, Câmaras Técnicas, Fórum das Unidades Regionais (FUR), de Acervos, redes de pesquisa e outros espaços, onde o diálogo será amadurecido e o Termo de Referência aprimorado. No final de agosto, será realizada uma consulta pública, para receber contribuições da sociedade. A última etapa é a apreciação do documento pelo Conselho Deliberativo da Fiocruz, em novembro.

 

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